quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A dimensão erótica do amor

Outro trecho do documento "A alegria do amor":

150. Tudo isto nos leva a falar da vida sexual dos esposos. O próprio Deus criou a sexualidade, que é um presente maravilhoso para as suas criaturas. Quando se cultiva e evita o seu descontrole, fazemo-lo para impedir que se produza o «depauperamento de um valor autêntico».[146] São João Paulo II rejeitou a ideia de que a doutrina da Igreja leve a «uma negação do valor do sexo humano» ou que o tolere simplesmente «pela necessidade da procriação».[147] A necessidade sexual dos esposos não é objecto de menosprezo, e «não se trata de modo algum de pôr em questão aquela necessidade».[148]

151. A quantos receiam que, com a educação das paixões e da sexualidade, se prejudique a espontaneidade do amor sexual, São João Paulo II respondia que o ser humano «é também chamado à plena e matura espontaneidade das relações», que «é o fruto gradual do discernimento dos impulsos do próprio coração».[149] É algo que se conquista, pois todo o ser humano «deve, perseverante e coerentemente, aprender o que é o significado do corpo».[150] A sexualidade não é um recurso para compensar ou entreter, mas trata-se de uma linguagem interpessoal onde o outro é tomado a sério, com o seu valor sagrado e inviolável. Assim, «o coração humano torna-se participante, por assim dizer, de outra espontaneidade».[151] Neste contexto, o erotismo aparece como uma manifestação especificamente humana da sexualidade. Nele pode-se encontrar o «significado esponsal do corpo e a autêntica dignidade do dom».[152] Nas suas catequeses sobre a teologia do corpo humano, São João Paulo II ensinou que a corporeidade sexuada «é não só fonte de fecundidade e de procriação», mas possui «a capacidade de exprimir o amor: exatamente aquele amor em que o homem-pessoa se torna dom».[153] O erotismo mais saudável, embora esteja ligado a uma busca de prazer, supõe a admiração e, por isso, pode humanizar os impulsos.

152. Assim, não podemos, de maneira alguma, entender a dimensão erótica do amor como um mal permitido ou como um peso tolerável para o bem da família, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos. Tratando-se de uma paixão sublimada pelo amor que admira a dignidade do outro, torna-se uma «afirmação amorosa plena e cristalina», mostrando-nos de que maravilhas é capaz o coração humano, e assim, por um momento, «sente-se que a existência humana foi um sucesso».[154]

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O diálogo

136. O diálogo é uma modalidade privilegiada e indispensável para viver, exprimir e maturar o amor na vida matrimonial e familiar. Mas requer uma longa e diligente aprendizagem. Homens e mulheres, adultos e jovens têm maneiras diversas de comunicar, usam linguagens diferentes, regem-se por códigos distintos. O modo de perguntar, a forma de responder, o tom usado, o momento escolhido e muitos outros factores podem condicionar a comunicação. Além disso, é sempre necessário cultivar algumas atitudes que são expressão de amor e tornam possível o diálogo autêntico.

137. Reservar tempo, tempo de qualidade, que permita escutar, com paciência e atenção, até que o outro tenha manifestado tudo o que precisava de comunicar. Isto requer a ascese de não começar a falar antes do momento apropriado. Em vez de começar a dar opiniões ou conselhos, é preciso assegurar-se de ter escutado tudo o que o outro tem necessidade de dizer. Isto implica fazer silêncio interior, para escutar sem ruídos no coração e na mente: despojar-se das pressas, pôr de lado as próprias necessidades e urgências, dar espaço. Muitas vezes um dos cônjuges não precisa duma solução para os seus problemas, mas de ser ouvido. Tem de sentir que se apreendeu a sua mágoa, a sua desilusão, o seu medo, a sua ira, a sua esperança, o seu sonho. Todavia é frequente ouvir estes queixumes: «Não me ouve. E quando parece que o faz, na realidade está a pensar noutra coisa». «Falo-lhe e tenho a sensação de que está à espera que acabe de vez». «Quando lhe falo, tenta mudar de assunto ou dá-me respostas rápidas para encerrar a conversa».

138. Desenvolver o hábito de dar real importância ao outro. Trata-se de dar valor à sua pessoa, reconhecer que tem direito de existir, pensar de maneira autónoma e ser feliz. É preciso nunca subestimar aquilo que diz ou reivindica, ainda que seja necessário exprimir o meu ponto de vista. A tudo isto subjaz a convicção de que todos têm algo para dar, pois têm outra experiência da vida, olham doutro ponto de vista, desenvolveram outras preocupações e possuem outras capacidades e intuições. É possível reconhecer a verdade do outro, a importância das suas preocupações mais profundas e a motivação de fundo do que diz, inclusive das palavras agressivas. Para isso, é preciso colocar-se no seu lugar e interpretar a profundidade do seu coração, individuar o que o apaixona, e tomar essa paixão como ponto de partida para aprofundar o diálogo.

139. Amplitude mental, para não se encerrar obsessivamente numas poucas ideias, e flexibilidade para poder modificar ou completar as próprias opiniões. É possível que, do meu pensamento e do pensamento do outro, possa surgir uma nova síntese que nos enriqueça a ambos. A unidade, a que temos de aspirar, não é uniformidade, mas uma «unidade na diversidade» ou uma «diversidade reconciliada». Neste estilo enriquecedor de comunhão fraterna, seres diferentes encontram-se, respeitam-se e apreciam-se, mas mantendo distintos matizes e acentos que enriquecem o bem comum. Temos de nos libertar da obrigação de ser iguais. Também é necessária sagacidade para advertir a tempo eventuais «interferências», a fim de que não destruam um processo de diálogo. Por exemplo, reconhecer os maus sentimentos que poderiam surgir e relativizá-los, para não prejudicarem a comunicação. É importante a capacidade de expressar aquilo que se sente, sem ferir; utilizar uma linguagem e um modo de falar que possam ser mais facilmente aceites ou tolerados pelo outro, embora o conteúdo seja exigente; expor as próprias críticas, mas sem descarregar a ira como uma forma de vingança, e evitar uma linguagem moralizante que procure apenas agredir, ironizar, culpabilizar, ferir. Há tantas discussões no casal que não são por questões muito graves; às vezes trata-se de pequenas coisas, pouco relevantes, mas o que altera os ânimos é o modo de as dizer ou a atitude que se assume no diálogo.

140. Ter gestos de solicitude pelo outro e demonstrações de carinho. O amor supera as piores barreiras. Quando se pode amar alguém ou quando nos sentimos amados por essa pessoa, conseguimos entender melhor o que ela quer exprimir e fazer-nos compreender. É preciso superar a fragilidade que nos leva a temer o outro como se fosse um «concorrente». É muito importante fundar a própria segurança em opções profundas, convicções e valores, e não no desejo de ganhar uma discussão ou no facto de nos darem razão.

141.Por último, reconheçamos que, para ser profícuo o diálogo, é preciso ter algo para se dizer; e isto requer uma riqueza interior que se alimenta com a leitura, a reflexão pessoal, a oração e a abertura à sociedade. Caso contrário, a conversa torna-se aborrecida e inconsistente. Quando cada um dos cônjuges não cultiva o próprio espírito e não há uma variedade de relações com outras pessoas, a vida familiar torna-se endogâmica e o diálogo fica empobrecido.

Trecho extraído de http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn5

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A Felicidade Humana

A Felicidade, pelo filósofo espanhol Julían Marías.
Explicação muito interessante e inspiradora de aspectos essenciais daquilo que todo ser humano busca.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Trecho do texto Amoris Leatitia sobre compreensão e desculpa na convivência

113. Os esposos, que se amam e se pertencem, falam bem um do outro, procuram mostrar mais o lado bom do cônjuge do que as suas fraquezas e erros. Em todo o caso, guardam silêncio para não danificar a sua imagem. Mas não é apenas um gesto externo, brota duma atitude interior. Também não é a ingenuidade de quem pretende não ver as dificuldades e os pontos fracos do outro, mas a perspectiva ampla de quem coloca estas fraquezas e erros no seu contexto; lembra-se de que estes defeitos constituem apenas uma parte, não são a totalidade do ser do outro: um facto desagradável no relacionamento não é a totalidade desse relacionamento. Assim é possível aceitar, com simplicidade, que todos somos uma complexa combinação de luzes e sombras. O outro não é apenas aquilo que me incomoda; é muito mais do que isso. E, pela mesma razão, não lhe exijo que seja perfeito o seu amor para o apreciar: ama-me como é e como pode, com os seus limites, mas o facto de o seu amor ser imperfeito não significa que seja falso ou que não seja real. É real, mas limitado e terreno. Por isso, se eu lhe exigir demais, de alguma maneira mo fará saber, pois não poderá nem aceitará desempenhar o papel dum ser divino nem estar ao serviço de todas as minhas necessidades. O amor convive com a imperfeição, desculpa-a e sabe guardar silêncio perante os limites do ser amado.

https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Coréia do Norte, Vida e Natal

Acabamos de ouvir a notícia da morte do líder norte-coreano Kim Jong-Il nestes dias e pude assistir a alguns comentários sobre a vida no país, inclusive de pessoas que conseguiram visitá-lo. É impressionante, especialmente para os nossos padrões de vida, seja econômico, cultural, social, tecnológico, etc. Os norte-coreanos vivem uma vida materialmente bastante precária em geral - passam fome, não tem luz à noite, por exemplo -, mas as coisas que mais me doeram foram: a induzida quase-idolatria ao líder e ao pai do líder (pai da coréia do norte comunista), a nula e suprimida livre expressão popular (não há jornais e TV só estatal) e o isolamento internacional. Lembre-se que o país se chama República Democrática Popular da Coréia, apesar de não ter nada de república e nem de democrática (e nem de popular na verdade).

Os brasileiros entrevistados explicaram como foi a visita ao país: guias norte-coreanos os acompanharam o tempo todo por um percurso pré-estabelecido, pessoas não-autorizadas não podiam falar com eles, estrangeiros, (mesmo assim uma coreana se arriscou para pedir um suco; talvez já esteja morta...); ninguém fala inglês, então não se pode, de fato, interagir com ninguém. Eu resumiria essa realidade não em pouco desenvolvimento - o que é verdade! -, mas em alienação da realidade, da vida humana. Isso me pareceu, perdoem-me os norte-coreanos, de que são tratados como gado.

Será que nossa sociedade, generalizando para o Ocidente todo, é muito diferente? Eu acho que é bastante diferente sim, mas temos algo em comum. Vivemos alienados pra caramba! Temos em nossos tempos considerável progresso material (recursos, alimentos, tecnologia, etc.), porém gradativa degeneração cultural, que se manifesta - de maneira geral, é claro - na deterioração da arte. Estandarte da cultura, a arte é um sinal vital do espírito de uma sociedade, afinal é o espírito do homem é que fica plasmado na arte. Pode-se dizer que a arte contemporânea basicamente se transformou em entretenimento (o cinema hollywoodiano é a expressão máxima disso), em marketing comercial e em sensações em geral Ela prostitui-se por carecer exatamente de conteúdo.

Pois bem, carecemos de conteúdo espiritual - valores, grandes motivos de alegria, razões para viver, ideais de vida, etc. -, apesar de adorarmos filmes de super-heróis e admirarmos histórias heróicas em geral. Porque justamente vivemos como que "boiando", imersos num turbilhão de informações e prazeres passageiros. Somos quase-incapazes de pensar por conta própria, como os norte-coreanos. A diferença é que aqui somos levados, "tocados", pelos fortes e alucinantes apelos ao consumismo e  hedonismo, num clima de "liberdade". A vida de milhões de pessoas é simplesmente pautada pelo próximo modelo de celular, carro, etc. Essencialmente, nós e os norte-coreanos vivemos não para o que fomos feitos – fazer as coisas nos entregando e amando para sermos felizes – mas servindo a um líder ou a objetos brilhantes de plástico. Achamos que estamos sendo livres, autônomos, independentes, apesar de enchermos nossas mentes com um monte de informações irrelevantes e nos escravizar a diferentes prazeres. Talvez tenhamos até menos mérito do que aquela população norte-coreana oprimida e vivendo sob risco de morte, pois somos uns soberbos pisando em estrume.

Vida e Natal têm uma especialíssima e intrínseca ligação. Sabendo da debilidade e potencial maldade humana – como acabamos de comentar inclusive –, Jesus Cristo quis num dado instante da nossa história assumir a nossa natureza, nascendo e vivendo como a gente. É mistério pela limitação de nossa inteligência, mas é uma realidade de fato e maravilhosa! Jesus Cristo sim é motivo verdadeiro para se identificar e dedicar a vida, não um homem ou objetos. Jesus, Deus-Homem, ensina-nos a valorizar a vida que ganhamos e ter presente o que é realmente importante e relativizar o que não é. Tenho certeza de que muitos querem, no fundo da alma, gastar a vida em algo que vale realmente a pena, algo grande – mesmo sendo difícil – e que preencha esse nosso coração sempre sedento do Infinito. Nós não nos criamos, não decidimos nascer, não nos possuímos propriamente falando. Temos uma natureza humana com “impressão digital” divina, somos feitos para “algo muito grande”. Jesus, parabéns pela festa e ajuda-nos a apontar nossas vidas ao Pai Criador com espírito de gratidão, sejam quais forem as circunstâncias em que nos encontremos! Agora tá na hora de aprender alguma coisa com o Presépio...