Bento XVI: que os êxitos da ciência não escureçam o transcendente
Mensagem ao congresso “Do telescópio de Galileu à cosmologia evolutiva”
Neste Ano Internacional da Astronomia, que comemora o 4º centenário da invenção do telescópio, o pontífice recorda que com ele “cresceu na cultura a consciência de encontrar-se diante de um ponto crucial da história da humanidade”.
“A ciência se convertia em algo diferente de como os antigos a haviam concebido sempre (...). O método dedutivo cedia espaço ao indutivo e abria o caminho à experimentação. O conceito de ciência que havia durado séculos era agora modificado, empreendendo o caminho rumo a uma nova concepção do mundo e do homem.”
“Galileu – explica o Papa – havia adentrado nos caminhos desconhecidos do universo; ele abria a porta para observar espaços cada vez mais imensos.”
A lição de Galileu é que a matéria “possui uma inteligibilidade capaz de falar à inteligência do homem e de indicar um caminho que vai muito além do simples fenômeno”.
“E, no entanto, a matemática é uma invenção do espírito humano para compreender a criação. Mas se a natureza está realmente estruturada com uma linguagem matemática e a matemática inventada pelo homem pode chegar a compreendê-la, isso significa que se verifica algo extraordinário: a estrutura objetiva do universo e a estrutura intelectual do sujeito humano coincidem, a razão objetiva e a razão objetivada na natureza são idênticas.”
Em qualquer caso, as perguntas sobre a imensidade do universo, sobre sua origem e sobre seu fim, assim como sobre sua compreensão, “não admitem uma única resposta de caráter científico”.
“Quem observa o cosmos seguindo a lição de Galileu, não poderá deter-se somente naquilo que observa com o telescópio; deverá perguntar-se sobre o sentido e o fim ao qual se orienta toda a criação.”
Neste contexto, a filosofia e a teologia revestem um papel importante “para aplanar o caminho rumo a ulteriores conhecimentos”.
A primeira, “diante dos fenômenos e da beleza da criação, busca, com seu raciocínio, entender a natureza e a finalidade última do cosmos”; a segunda, ao contrário, “fundada sobre a Palavra revelada, escruta a beleza e a sabedoria do amor de Deus, que deixou suas pegadas na natureza criada”.
“Neste movimento gnosiológico, estão envolvidos tanto a razão como a fé; ambas oferecem sua luz.”
Portanto, afirma o Papa, “não há nenhum conflito no horizonte entre os diversos conhecimentos científicos e os filosóficos e teológicos; ao contrário, somente na medida em que estes conseguirem entrar em diálogo e intercambiar suas respectivas competências, serão capazes de apresentar aos homens de hoje resultados verdadeiramente eficazes”.
O descobrimento de Galileu, sublinha o Papa, “foi uma etapa decisiva para a história da humanidade”, da qual “surgiram outras grandes conquistas, com a invenção de instrumentos que tornam precioso o progresso tecnológico ao que se chegou”.
Contudo, existe sempre um risco sutil de que o homem “confie somente na ciência e se esqueça de elevar os olhos para além de si mesmo”.
Por isso, o Papa convida a dirigir o olhar “a este Ser transcendente, Criador de tudo, que em Jesus Cristo revelou seu rosto de Amor”.